domingo, 18 de janeiro de 2009

Festival Islâmico de Mértola


O Festival Islâmico decorre, este ano, entre os dias 21 e 24 de Maio. Este festival conta com várias iniciativas, desde a música, teatro, conferências, souk (mercado). Durante três dias Mértola revive o ambiente medieval, época em que foi ocupada pelos muçulmanos e era conhecida por Mārtulah.
A chamada à oração (adhan), cinco vezes por dia, ecoa pelas ruas de Mértola, os irmãos muçulmanos prostram-se e rezam. Sentimos vontade de nos colocarmos ao seu lado e rezarmos também. Aqui fica o cartaz da edição de 2009.

sábado, 18 de outubro de 2008

Colóquio internacional Duns Escoto e as origens da Filosofia Moderna

O franciscano escocês João Duns Escoto (c. 1265-1308), partindo de uma reflexão ancorada na Teologia, introduziu nas discussões filosóficas inúmeras inovações conceptuais, argumentativas e doutrinais sobre o ser, os universais, o conhecimento intuitivo e a experiência, as ciências e a sua organização, a natureza da possibilidade, o infinito, a vontade, a liberdade e a providência, a felicidade, o poder e a pobreza, para apenas enumerar algumas. Mestre universitário, Duns Escoto ensinou em Oxford, Paris e Colónia. Apesar da curta vida de cerca de 42 anos e de ter deixado muitos dos seus escritos incompletos e em curso de revisão, escreveu uma extensa e complexa obra sobre Lógica, Psicologia, Metafísica, Teologia. A radical profundidade do pensamento de Duns Escoto, inovador a muitos títulos, granjeou-lhe o título de doutor subtil, tornou-o mentor de uma escola e de um modo de pensar de grande influência pelo menos até ao século XVIII e tem justificado nas últimas décadas associá-lo a um segundo nascimento da Metafísica.
João Duns Escoto (c. 1265-1308) e as origens da Filosofia Moderna, que decorre na FLUP de 12 a 15 de Novembro de 2008, engloba diversas de iniciativas: laboratório de investigação, colóquio internacional, exposição e edição de um guia bibliográfico, lançamento de obras. Especialistas de diversos países (Brasil, Espanha, França, Itália, Portugal) discutem o pensamento de Duns Escoto no horizonte de compreensão das fundações da modernidade filosófica.
No colóquio é dado tempo para a discussão pelos participante das comunicações apresentadas.



12 de Novembro
10,00-17,00 : LABORATÓRIO DE FILOSOFIA MEDIEVAL


Introdução à investigação sobre João Duns Escoto: obras e pensamento
por: José Meirinhos; Roberto Hofmeister Pich; Cruz González Ayesta.


1) Perspectivas introdutórias: contexto filosófico, obras, problemas
2) Metafísica e teoria do conhecimento
3) Natureza e vontade
O Laboratório é uma introdução prática ao estudo de Duns Escoto nos seus textos.
Máximo de 15 participantes, por ordem de chegada das inscrições.
13,00-14,30 Almoço dos participantes.



17,30 : Inauguração da EXPOSIÇÃO BIBLIOGRÁFICA JOÃO DUNS ESCOTO


Biblioteca da FLUP, 12 a 30 de Novembro




COLOQUIO
Sala de reuniões (piso 2)

13 de Novembro
9,30 Sessão de Abertura
-- Representantes da FLUP e da UP
-- José Meirinhos, FLUP / GFM
-- Luís Alberto De Boni*, Porto Alegre
-- Vítor Melícias, Ministro Geral da Província Franciscana Portuguesa

10,00-10,45 Conferência de Abertura
Alessandro GHISALBERTI (Milano, Itália), Il rinnovamento del concetto di libertà in Duns Scoto
Pausa para café

11,30-13,00
César Ribas CEZAR (São Paulo, Brasil), Causalidade e indução em Duns Escoto
Dominique DEMANGE (Paris, França), Structure et unité de la science selon Duns Scot
13,00-14,30 Almoço

14,30-16,00
Maria Leonor Xavier (Lisboa), A subtil influência de Anselmo na filosofia do Doutor Subtil
Mário Santiago de Carvalho (Coimbra), Aliqua est effectibilis ergo aliqua effectiva'. Novidade e originalidade da Filosofia

Pausa para café

16,30-18,00
Gonçalo FIGUEIREDO (Lisboa), Se a liberdade da vontade e a necessidade natural podem coexistir no mesmo sujeito em relação ao mesmo acto e objecto
Cruz GONZÁLEZ AYESTA (Pamplona, Espanha), A Paradox in Scotus’ Account on Freedom of the Will


13 de Novembro - Sala de reuniões (piso 2)
18,00 : APRESENTAÇÃO/LANÇAMENTO DE OBRAS RECENTES


João Duns Scotus, Textos sobre poder, conhecimento e contingência, ed. e trad. Roberto Hofmeister PICH, (col. Pensamento Franciscano, 11) EDIPUCRS, Porto Alegre 2008.
MERINO, José António: João Duns Escoto. Introdução ao seu pensamento, trad., Editorial Franciscana, Lisboa 2008.
DE BONI, L.A. (org.), João Duns Scotus (1308-2008). Homenagem dos scotistas lusófonos, Ed. EST, Porto Alegre 2008.
PICH, Roberto Hofmeister (ed.), New Essays on Metaphysics as “scientia transcendens”, (TEMA 43), FIDEM, Louvain-la-Neuve 2007.
João Duns Scotus (1308-2008), org. L.A. DE BONI e R.H. PICH, in Veritas, vol. 53, 3 (2008).
Juan Duns Escoto, Naturaleza y voluntad. Quaestiones super libros Metaphysicorum Aristotelis, IX, q. 15, Trad., introd. y not. de Cruz GONZÁLEZ AYESTA, Universidad de Navarra, Pamplona, 2007.
No final será servido um Porto de honra aos participantes.

14 de Novembro
9,00-11,00
Santiago ESCOBAR GÓMEZ (Madrid, Espanha), Elementos de filosofía árabe en el pensar de Duns Escoto
Francisco LEÓN FLORIDO (Madrid, Espanha), Claves escotistas en el pensamiento político moderno: distinción formal y potencia absoluta
Pausa para café

11,15-12,45
José MEIRINHOS (Porto), A subalternação das ciências no escotista Gomes de Lisboa
Marco FORLIVESI (Padova, Itália), L'unità di una scienza asimmetrica: la natura della metafisica secondo Gabriele Zerbi, Jan di Głogów e Antonio Trombetta
12,45-14,30 Almoço

14,30-16,00
José Maria da Costa MACEDO (Porto), Individualidade e individuação em Duns Escoto: perspectivas e interrogações
Manuel Lázaro (Cáceres, Espanha), El ser unívoco, profundidad ontológica de la analogía estética. La metafísica franciscana

Pausa para café

16,30-17,30
Luís Alberto de Boni* (Porto Alegre, Brasil), As perfeições puras como transcendentais em Duns Scotus
Roberto Hofmeister Pich (Porto Alegre, Brasil), Cognição intuitiva e modalidades epistémicas

17,30 Sessão de Encerramento
-- Maria Cândida Pacheco, Universidade do Porto / GFM
-- Roberto Hofmeister Pich, Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
-- Vítor Melícias, Ministro Geral da Província Franciscana Portuguesa.


* Presença a confirmar


Comissão organizadora
José Meirinhos, Prof. Associado, FLUP (pres. Com. Organizadora)
Maria Cândida Pacheco, Prof.ª Catedrática Emérita, FLUP
Luis Alberto De Boni, Prof. Filosofia Medieval da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
Roberto Hofmeister Pich, Prof. Filosofia Medieval - Pós-graduação em Filosofia, Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
Gonçalo Figueiredo, Província Franciscana Portuguesa
Mariana Leite, Estudante de pós-graduação, FLUP (secretariado)
Patrícia Calvário, Estudante de pós-graduação, FLUP (secretariado)

Entidades organizadoras
Gabinete de Filosofia Medieval – FLUP
Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre;
Província Franciscana Portuguesa.


Apoios
Departamento de Filosofia FLUP
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Universidade do Porto
Fundação para a Ciência e a Tecnologia

domingo, 28 de setembro de 2008

João Duns Escoto (c. 1265-1308) e as origens da Filosofia Moderna


O Colóquio internacional: João Duns Escoto (c. 1265-1308) e as origens da Filosofia Moderna decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade do Porto de 13 a 15 de Novembro de 2008.

(programa a divulgar em breve)

Organização:
Gabinete de Filosofia Medieval
Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
Província Franciscana Portuguesa

Mediaevalia - Calling for Papers


Mediaevalia. Textos e estudos volume 27 (2008): 31 de Outubro de 2008 é a data limite para propostas de publicação.

Mediaevalia. Textos e estudos é uma revista internacional impressa, com submissão de textos a revisão anónima pelos pares (peer review).
A revista publica trabalhos originais e inéditos em todos os campos da Filosofia e Teologia medievais, e sobre manuscritos ou instituições culturais e de ensino medievais. Os contributos submetidos podem ter uma orientação filosófica, ou histórica, ou ambas.
Secções da revista: Textos (edição crítica de textos e traduções); Estudos (problemas filosóficos, autores, correntes filosóficas, manuscritos); Materiais (notas de investigação; bibliografias críticas; estados da arte; discussões e polémicas; breves ensaios sobre questões editoriais ou historiográficas, etc.); Recensões críticas.
Línguas: a revista publica estudos em latim, alemão, castelhano, francês, inglês, italiano, português.

sábado, 26 de julho de 2008

A Filosofia Árabe


Tal como os filósofos cristãos, também os árabes, mutatis mutandis, tentaram conciliar o conteúdo da revelação com a filosofia, ou melhor, esforçaram-se por explicar racionalmente a verdade revelada através da filosofia. Pretendiam perpassar a obscuridade da fé com a luz da razão natural. Trata-se de conciliar a fé com a razão, síntese que muitas vezes culmina em modos originais de pensar. O pensamento rígido do Corão e dos tradicionalistas chocou muitas vezes com a cosmovisão platónica e aristotélica, sobretudo nas concepções da criação e da acção divina sobre o mundo.
Os árabes tiveram contacto com a filosofia grega através dos territórios conquistados onde predominava a cultura helénica e assim conheceram obras gregas no campo da medicina, matemática e filosofia. Através da traduções feitas pelos judeus de Espanha dos comentadores de Aristóteles, os europeus puderam conhecer a maior parte do corpus aristotelicum, que era desconhecido até então. O que mais se conhecia de Aristóteles era somente a lógica, depois, através dos comentadores árabes, juntou-se a metafísica, a física, a ética e a psicologia.

Para o estudo da filosofia islâmica recomendamos o site Islamic Philosophy Online.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Festival de Música Medieval - Carrazeda de Ansiães


O VII Festival de Música Medieval decorre nos dias 12, 13, 18, 19 e 20 de Julho na bela vila transmontana de Carrazeda de Ansiães. Aqui fica o programa bem convidativo:


Sábado, 12 de Julho às 21h30

ENSEMBLE HISPÂNIA - Direcção de Fernando Gomes Programa: “Oriente-Ocidente”

Igreja de Beira Grande

O grupo apresenta uma reflexão sobre as relações interculturais entre as comunidades mouras, judias e cristãs na Idade Média e a memória sobrevivente de algumas das suas músicas nas tradições orais peninsulares e da diáspora.


Domingo, 13 de Julho, às 21h30

VOZES ALFONSINAS - Dir. de Manuel Pedro Ferreira Programa: “Sons perdidos, revividos” Igreja de Selores

O programa inédito cobre um período de tempo de mais de mil anos de história, começando pela monodia litúrgica cristã, prosseguindo com exemplos das polifonias primitivas e terminando com o repertório do precioso manuscrito 714, do século XV, conservado na Biblioteca Pública Municipal do Porto, constituído por canções polifónicas de tema amoroso.


Sexta,18 de Julho, das 15 às 18 horas

OFICINA: ”A Arte dos Instrumentos Musicais na Idade Média” Auditório do Centro de Apoio Rural
O workshop visa facilitar o contacto do novo público interessado na abordagem prática da música medieval


Sábado, 19 de Julho, às 21h30

MEDIAE VOX ENSEMBLE - Direção de Filipa Taipina Programa: “Miracles de Notre Dame de Gautier de Coincy” Igreja de Amedo

O grupo apresenta um excerto dos célebres Miracles de Nostre Dame, de Gautier de Coincy, colecção de narrativas que teriam inspirado a obra Cantigas de Santa Maria, do rei Afonso X


Domingo, 20 de Julho, às 21h30
LA BATALLA - Direção de Pedro Caldeira Cabral Programa: “Dois Cancioneiros Senhoriais”

Centro Cívico de Ansiães

Para encerrar o festival, os La Batalla apresenta um programa especial com excertos de dois cancioneiros de âmbito senhorial, produzidos respectivamente por D.João Perez Aboim, senhor de Portel e Estevam da Guarda, trovador que foi conselheiro do rei D. Afonso IV

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Tomás de Aquino urbanista



Propuseram-nos escrever um pequeno texto acerca de Tomás de Aquino e a sua concepção de cidade, nas vertentes políticas e urbanísticas.
Comecemos por expor qual a origem e a finalidade da cidade, segundo Aquino. Ora, os homens unem-se uns aos outros por uma condição da sua própria natureza. O homem é por natureza um “animal sociável e político” que vive em conjunto. A finalidade da vida em comum, ou seja, da cidade, é o bem-estar dos indivíduos. A cidade tem como finalidade ou ordena-se, em última instância, à felicidade do homem. Importa, por isso, que tenha todas as condições que permitirão ao homem ter uma boa qualidade de vida. É importante mencionar que, para Aquino, este fim da cidade, que podemos designar de terreno, subordina-se a um outro fim, último, que é a beatitude celeste.
Tomás de Aquino refere que há duas coisas essenciais para a boa vida do ser humano enquanto indivíduo: a acção segundo a virtude e possuir bens corporais necessários para que se possa exercer a virtude. Para haver a boa vida da multidão requer-se que haja uma unidade entre todos, que a multidão seja incitada às boas acções e, por último, que haja abundância de bens indispensáveis ao bem viver. O governante deve providenciar para que se conserve este estado na multidão. Deve também substituir os homens encarregues das diversas funções; deve usar a lei, prémios e castigos para induzir os homens às boas obras; por último, deve o rei também tomar as devidas medidas para tornar a cidade segura.
A função do governante é, portanto estabelecer, manter e promover a vida recta entre os seus súbditos. Para regular a vida neste domínio o príncipe deve dar recompensas e penalizar aqueles que não cumprem as leis, deve também defender o povo contra ameaças externas.
Quanto às preocupações urbanísticas, Aquino, faz no De Regno[1], uma breve exposição acerca das condições geográficas em que deve ser fundada uma cidade. Também o urbanismo existe enquanto proporciona o bem-estar dos indivíduos. Pelo menos no De Regno de Tomás de Aquino, não encontramos uma preocupação estética do espaço urbano. A organização geográfica da cidade é sempre com vista a proporcionar o bem-estar dos indivíduos. O que não quer dizer que na Idade Média não existisse essa sensibilidade estética. Encontramos, por exemplo, vários tipos de jardins, que existiam, não somente para uma utilidade prática, mas também para recreação e lazer. Os jardins eram todos privados, pois ainda não existia a necessidade da criação de espaços verdes, só durante o pleno desenvolvimento da Revolução Industrial, em 1843 aparece na Inglaterra o primeiro jardim público, o jardim de Birkenhead, criação de Joseph Paxton. Não é de admirar que tenha tardado tanto tempo a aparecer no mundo ocidental o primeiro jardim público, só durante esta época as cidades começam a ficar saturadas.
Os hortus conclusus, espaços fechados, de uso privado, usualmente jardins situados nos claustros, geralmente com uma fonte no centro, tinham um valor estético, também funcional, no caso dos jardins medicinais, e até simbólico: a fonte no centro representava a “fonte da vida”, da água viva do baptismo.
Nos dois capítulos finais do DR, Tomás de Aquino tece algumas considerações acerca do local onde deve ser fundada uma cidade. Vitrúvio[2] é a grande influência de Aquino nestes dois capítulos finais.
Para se fundar uma cidade deve-se escolher uma região com um clima temperado, pois é o melhor para os habitantes. Isto em vários sentidos, primeiro no que respeita à saúde. O clima temperado conserva o corpo e dá longevidade. A esta concepção subjaz a doutrina dos humores[3].
Segundo, porque as regiões temperadas convêm mais nas situações de guerra. A explicação que o Doutor Angélico dá é, mais uma vez, fundamentada na doutrina dos humores: os climas temperados dão origem a homens que desprezam os ferimentos e a morte, destemidos e prudentes.
Por último, a política faz-se ou é própria de zonas com este tipo de clima: «As que, contudo, vivem nas zonas médias são dotadas tanto de intelecto como de ânimo, resultando não só perseverarem livres e poderem viver ao máximo politicamente, mas também saberem mandar nos outros»[4].
Depois de escolhida uma zona temperada para fundar a cidade é necessário uma escolha também de um local que tenha um clima salubre. Aquino faz notar que o convívio entre as pessoas fundamenta-se ou constrói-se a partir de um ambiente externo que seja propício a esse fim. Diz Vitúvrio (e Aquino) que o local mais saudável é o elevado, pois é bem arejado, impedindo que o ar se torne impuro; deve ser um local afastado dos pântanos que exalam gases venenosos.
O lugar que se destina à fundação da cidade tem de ser temperadamente exposto ao calor e ao frio. O fundador da cidade dever ter, por isso, atenção aos pontos cardeais, à exposição ao sol segundo os pontos cardeais.
Com estas considerações termina a obra escrita pela mão de Tomás de Aquino, tendo sido o resto escrito por Ptolomeu de Luca, como já dissemos no início da exposição.


[1] De Regno foi escrito entre 1265 e 1266; é um texto que foi deixado incompleto, tendo sido terminado por Ptolomeu de Luca, um discípulo de São Tomás. É dedicado ao rei de Chipre.

[2] Arquitecto e engenheiro romano que viveu no século I a. C., escreveu o De Architectura.
[3] «Fundamentava-se numa classificação quaternária do cosmos, que estabelecia quatro tipos de temperamentos, conforme a predominância no organismo de um entre os quatro componentes líquidos (=humores) que determinam a compleição do mesmo: a bílis amarela, a fleuma, o sangue, a melancolia ou ‘atra bílis’. Por sua vez, haveria uma correspondência entre os quatro humores, os quatro elementos físicos constitutivos da realidade (fogo, água, ar, terra), as estações do ano (Verão, Inverno, Primavera, Outono), as idades da vida (maturidade, velhice, juventude, envelhecer), as horas do dia (o meio dia, a noite, a manhã, o entardecer), e os planetas (Vulcano, Neptuno, Minerva, Saturno). Nesse quadro, a prevalência da bílis amarela determina o temperamento colérico, a prevalência da fleuma determina o temperamento fleumático, a prevalência do sangue, o sanguíneo, e a prevalência da melancolia, o temperamento melancólico.
Os humores eram considerados como os factores ‘responsáveis’ seja pela saúde seja pelas doenças do organismo. A complexio sanguinea era geralmente considerada pelos médicos como a mais saudável, e por outro lado, a compleição melancólica era julgada como a mais doentia, sendo acompanhada por distúrbios psíquicos em diversos graus (medo, depressão, delírio). Esta caracterização psicológica do melancólico depende da qualidade própria da atra-bilis de influir sobre os estados de ânimo. Os excessos na quantidade e no estado térmico deste humor seriam a causa da loucura, sendo que a genialidade seria devida à predominância moderada do humor e ao seu estado térmico temperado. A ambiguidade dos sintomas psíquicos da melancolia tornara pouco claro o limiar entre doença e normalidade, entre disposição e moléstia, sendo o tipo melancólico cada vez mais retratado pela literatura médica, em termos psicológicos (Klibansky, Panofsky e Saxl, 1983).
Gradualmente, a todos os humores é atribuída a capacidade de determinação psicológica inicialmente reconhecida apenas à melancolia. O médico romano Galeno, no primeiro século depois de Cristo, sistematiza esta visão psicossomática afirmando que os quatro humores contribuem para a determinação das qualidades morais e mentais dos indivíduos. Deste modo, ao longo da Idade Média, abriu-se o caminho para a transformação da doutrina dos humores numa teoria psicológica dos caracteres e tipos de personalidades. Todavia, segundo Klibansky, Panofsky e Saxl (1993), o agente desta transformação não foi propriamente a Medicina e sim a Filosofia escolástica. Esta relacionara a teoria dos temperamentos ao dogma teológico do pecado original, atribuindo assim aos humores uma significação moral. A Idade Média incumbiu-se também das traduções nos idiomas vulgares e da difusão da teoria dos temperamentos, de forma a incorporá-la no património da cultura popular e da medicina prática»: M. Massimi, A Teoria dos Temperamentos na Literatura Jesuíta, nos séculos XV e XVI, Atalaia – Revista do CICTSUL in http://www.triplov.com/atalaia/massimi.html.

[4] DR, livro II, cap. I, 52.